quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

História triste

   Mais um dia tórrido de verão. A rua estava deserta, a não ser por aquela senhora sentada em uma fina almofada na soleira da porta de sua casa. Tinha o cabelo todo branco, e em seu rosto estavam estampadas as marcas das primaveras vividas. Ou seriam invernos?  O relógio custava a andar, era como se o tempo tivesse parado. Não havia vento, não havia sons, somente a rua, e ela, imóvel. Cidade do interior? Não, apenas um bairro nostálgico em uma metrópole: inúmeras casas - ali prédios não imperavam.
   Se a rua era tão monótona assim, o que a senhora estava olhando? Impossível dizer, talvez a esperança de um olhar amigo, talvez o nada ou talvez buscasse memórias de tempos passados em meio aos últimos acontecimentos. Um gato branco com manchas cinzas saiu de dentro da casa. Tinha os olhos de um azul quase translúcido. Espiou o que acontecia do lado de fora e retornou. Ao fazer o caminho de volta, esbarrou em um gato relativamente mais gordo que aproveitava o vento produzido pelo ventilador de teto.
   A sala estava um pouco bagunçada, como se algumas crianças displicentes tivessem passado por lá. Mas, voltemos à senhora. Observando a calçada adiante, avistou dois vultos andando. Ao se aproximarem, percebeu que se tratavam de uma mulher com um menino pequeno pela mão. Felizes, passaram em frente a sua casa e a criança se entusiasmou ao ver os gatos. Infelizmente, a mãe o arrastou e sua distração afastou-se.
   Aquela estranha lembrou-a tanto de sua filha... Era uma pessoa maravilhosa e cheia de vida. Há cinco meses, ela falecera devido a uma série de problemas renais. Agora, seu neto estava tentando tirar-lhe a única casa, o lugar que tinha para morar. A vida prega tantas peças e nunca sabemos quando realmente é a última. Não sabia se preferia viver ou morrer, mas enquanto isso ia cuidando de seus gatos e levando... O tempo é implacável.

Um comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...