sexta-feira, 20 de abril de 2012

Descobertas inesperadas

              Para Isis, aquele não era mais um dia de trabalho qualquer. Desde o mês anterior, ela vinha pesquisando sobre uma antiga civilização da Europa Central. Ainda não tinha provas de sua existência e mérito, mas, com certeza, se procurasse mais, iria encontra-las. No dia seguinte, todos os funcionários teriam que entregar um relatório com o andamento de seus projetos. Urgentemente, ela precisava de algum documento para comprovar sua tese.
Florianópolis
              Em uma desesperada e última tentativa, pegou a chave do carro e saiu do escritório.  Era uma manhã de verão, torridamente abafada. Dirigiu até o centro e estacionou ao lado de um antigo prédio, a Prefeitura Municipal de Florianópolis. Ao lado, em um edifício novo e estranhamente retangular, estava a Biblioteca Helena Meyer. As paredes externas eram de um monótono tom de cinza, totalmente desestimulantes. Subiu os enésimos degraus da entrada e, por fim, adentrou o saguão principal.
              Era uma grande sala, com sofás, mesas e luminárias. No centro, um balcão se estendia por quase toda a parede. Várias secretarias atendiam os visitantes, restando-lhe somente a última.
              - Olá, como eu posso utilizar os livros disponíveis para uma pesquisa?
              - Preencha esta ficha. – A mulher disse rudemente.
              Efetuou o seu cadastro e passou pelas catracas de segurança. Lá dentro, ficou espantada com a quantidade de livros: as prateleiras ocupavam todas as paredes, do chão ao teto, além das estantes centrais. E esse era apenas o primeiro andar! Começou a procurar na seção de História Antiga.
Biblioteca Helena Meyer
              Encontrou alguns livros muito bons, mas nenhum deles continha a informação que ela precisava. Depois de horas revistando estantes, virando páginas e revirando pilhas, sentou-se em uma cadeira, exausta. Olhou a sua volta e viu seu sonho esvaindo-se. No último momento, não conseguiria a parte mais importante de sua tese: as provas. Sentiu que nada mais daria certo.
              Com essas tristes ideias, levantou o rosto e viu, através do poço central, uma porta entreaberta, revelando um ambiente levemente iluminado no andar superior. Na escada, havia uma placa de Acesso Restrito, porém, mais nada a impedia de subir. Segundo a tabuleta de indicação, aquela sala guardava o Arquivo Morto.
              Era impossível determinar seu tamanho, pois parecia um labirinto de estantes, abarrotadas de livros. Havia papéis antigos, documentos da Biblioteca, fichas dos funcionários, e muitos outros papéis sem finalidade atual. Muitos dos livros estavam tão velhos que Isis teve medo de tocá-los.
              Ao dobrar uma esquina, avistou um homem levantando-se. Ele estivera ajoelhado, recolhendo uma pilha de papéis do chão. Quando a viu, assustou-se e deixou que os papéis caíssem novamente, espalhando pó pelo ar. Ela se abaixou e o ajudou a recolhê-los. O homem colocou as folhas dentro de uma pasta, encaixando-a em seus braços.
              Por fim, os dois se levantaram e tiveram tempo de observar um ao outro. Ele, alto, cabelos pretos, usava o uniforme da biblioteca. Ela, Baixa, loira, usava um vestido com detalhes de renda.
              - A senhora tem autorização para estar aqui? – Ele perguntou.
              - Senhorita Isis Verena Lorna, por favor. Não sei, creio que não... Mas eu estou tão desesperada que não sei mais onde procurar.
              - Desculpe a grosseria, mas eu terei problemas se a encontrarem aqui. Meu nome é Yago. Em que posso ajudá-la?
              - Eu estou desenvolvendo um projeto sobre uma antiga civilização da Europa Central, e preciso urgentemente encontrar documentos que comprovem a destruição desse povo pelos Macedônios. Já procurei em tudo, mas não consigo registros históricos da época.
              - Olhe, não posso prometer que terei algo útil, mas venha por aqui.
              Yago virou-se e continuou a seguir aquele corredor. Andou por muito tempo, sempre com Isis o seguindo. Ela já estava se perguntando se a sala era infinita, quando ele disse:
              - Esse andar abriga mais livros que todo o resto da Biblioteca. Aqui guardamos as edições raras, antigas e com alto valor. É uma pena que as pessoas não tenham acesso, mas o diretor decidiu assim, e quem sou eu para contestar?
              Parando em frente a uma estante aparentemente igual às outras, ele indicou-a.
              - Aqui nós temos algumas edições originais da História Europeia. Estão em diversos idiomas, porém, com a ajuda de dicionários, você conseguirá traduzir o que for importante. Eu tenho que organizar algumas coisas, mas volto daqui a algum tempo e a ajudarei a procurar se for necessário.
              Depois disso, simplesmente virou as costas e saiu, deixando-a no meio do interminável labirinto. Por sorte, Isis conhecia muito bem o Gaélico Escocês e a língua inglesa, devido as suas origens escocesas. A maioria das edições estava em inglês, facilitando a sua busca. Depois de muito tempo, encontrou um pequeno trecho comentando a destruição de um povo desconhecido pelos Macedônios. Exultando de felicidade, ela riu, chorou, pulou. Quando estava dando voltinhas de alegria, viu que Yago estava observando-a.
              - Creio que você encontrou o que procurava, não?
              - Sim, sim!
              Em um ímpeto, Isis o abraçou. Porém, o momento passou e ela, ao perceber que não o conhecia direito, sentiu-se constrangida. Ele riu um pouco e sacudiu os ombros, como se não se importasse em abraçar mulheres estranhas.
              - Que horas são? – Ela perguntou. – Preciso voltar para a minha empresa e preparar o relatório.
              Olhando em seu relógio de pulso, ele respondeu:
              - Quatro horas. É meu horário de intervalo.
              - Eu ainda não almocei, mas prefiro voltar logo para o escritório, tenho muito trabalho a fazer.
              - Tudo bem. Quando você apresentar os documentos ao seu chefe, promete que me liga para dizer se foi aprovada? Ficaria feliz em saber que ajudei.
              - Sim, claro!
              Trocaram os números de telefone e despediram-se. Isis estava feliz como nunca, ansiosa por ver a reação de seu chefe. Ficou no escritório até tarde da noite, entretanto, conseguiu terminar o relatório.
Lola
              Na manhã seguinte, acordou uma hora antes do normal. Deu comida para sua tartaruga Lola, arrumou-se e saiu de seu apartamento, sem tomar o café da manhã. Desceu de escadas, já que, apesar dos sete andares, estava sem paciência para esperar o elevador. Entrou no seu carro e ligou o motor. Infelizmente, percebeu que a gasolina acabara. Correndo, saiu do prédio e foi para a esquina, esperar um ônibus.
              Depois de 15 minutos, viu o ônibus que precisava tomar. Abaixou a cabeça e começou a procurar o dinheiro para a passagem, quando, inesperadamente, um homem sem camisa se chocou contra ela. Abalada, esqueceu-se de fazer sinal para o ônibus, que passou reto. Olhou para ele e percebeu que era Yago.
              - Ah, desculpe senhora..., Isis?
              - Socorro, acabei de perder o meu ônibus e preciso ir para o trabalho! O que você está fazendo aqui?
              - Eu estava correndo, como faço todas as manhãs. Venha comigo, moro aqui perto. Eu lhe levo para o trabalho.
              Os dois caminharam duas quadras, conversando sobre livros e filmes. Ele morava em uma pequena e aconchegante casa, com um belo jardim na frente. Pegou seu carro esporte e, depois de uma breve explicação sobre o caminho, levou-a para o serviço.
              Parou o carro na frente da empresa dela e disse:
              - Não se esqueça de me ligar mais tarde!
              - Obrigada pela carona! – Pulou do carro e entrou saltitando na portaria.

3 comentários:

  1. Esse conto já dava ideias para você criar uma história de cunho fantástico. Ficou legal.

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  2. =O
    Como que um bibliotecário tem um carro esporte? =O
    Miaustérios

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